terça-feira, 12 de agosto de 2014

Também eu sou velha


Hoje, estava a ver o noticiário numa estação televisiva qualquer. A notícia que me chamou à atenção foi a morte de um casal de idosos em casa. Os vizinhos só deram por ela quando repararam que há uma semana não viam movimento em casa. Chamaram os bombeiros....o casal tinha morrido. As causas também não interessam para este meu desabafo. Este casal tinha filhos...como não deram por ela?
          Num instante olho para as minhas mãos engelhadas, espreito para o espelho e a cara tem rugas. Eu também sou velha, eu também sou um estorvo. A minha vida é igual a este casal de idosos...só que eu não tenho marido!
          Vivo numa casa sozinha ...só as plantas, as paredes e os tarecos me fazem companhia.
           Tenho filhos, noras e netos já criados que não vivem no estrangeiro, nem do outro lado do mundo como acontecia com este casal...vivem bem mais perto.
           Agora ao ouvir esta notícia vejo que a minha vida ou não vida é igual à deste casal. Raramente estou com eles...passa o meu aniversário, o dia da mãe, o dia dos avós...apenas um telefonema, lá nos encontramos no Natal, no Ano Novo na casa de um dos filhos.Eles lá vão telefonando ao domingo. Os netos, e com telemóveis topo de gama, não telefonam.
          Correm-me as lágrimas dos olhos. Vivo na solidão...os meus netos não conhecem as minhas histórias e até tenho algumas engraçadas...os meus filhos já não me conhecem e já não me perguntam do que gosto e do que preciso.
          Olho para as paredes da minha casa e também elas são frias...não têm histórias para contar, porque nesta casa não há vida.
           Eu para aqui estou à espera que a morte me bata à porta e quando ela chegar...meus filhos dirão: finalmente a velha morreu!
 

Elsa Barbosa

12/8/2014